O Livro dos Espíritos – Cap. 1 – Perguntas 01-14


PARTE PRIMEIRA
Das causas primárias
CAPÍTULO I – DE DEUS
1. Deus e o infinito. – 2. Provas da existência de Deus. – 3. Atributos da Divindade. – 4. Panteísmo.

Deus e o infinito

1. Que é Deus?
“Deus é a inteligência suprema, causa primária de todas as coisas”

2. Que se deve entender por infinito?
“O que não tem começo nem fim: o desconhecido; tudo que é desconhecido é
infinito.”

3. Poder-se-ia dizer que Deus é o infinito?
“Definição incompleta. Pobreza da linguagem humana, insuficiente para definir o
que está acima da linguagem dos homens.”

Deus é infinito em Suas perfeições, mas o infinito é uma abstração. Dizer que Deus
é o infinito é tomar o atributo de uma coisa pela coisa mesma, é definir uma coisa que não
está conhecida por uma outra que não está mais do que a primeira.

Provas da existência de Deus

4. Onde se pode encontrar a prova da existência de Deus?
“Num axioma que aplicais às vossas ciências. Não há efeito sem causa. Procurai a
causa de tudo o que não é obra do homem e a vossa razão responderá.”
Para crer-se em Deus, basta se lance o olhar sobre as obras da Criação. O Universo
existe, logo tem uma causa. Duvidar da existência de Deus é negar que todo efeito tem uma
causa e avançar que o nada pôde fazer alguma coisa.

5. Que dedução se pode tirar do sentimento instintivo, que todos os homens trazem
em si, da existência de Deus?
“A de que Deus existe; pois, donde lhes viria esse sentimento, se não tivesse uma
base? É ainda uma conseqüência do princípio – não há efeito sem causa.”

6. O sentimento íntimo que temos da existência de Deus não poderia ser fruto da
educação, resultado de idéias adquiridas?
“Se assim fosse, por que existiria nos vossos selvagens esse sentimento?”
Se o sentimento da existência de um ser supremo fosse tão-somente produto de um
ensino, não seria universal e não existiria senão nos que houvessem podido receber esse
ensino, conforme se dá com as noções científicas.

7. Poder-se-ia achar nas propriedades íntimas da matéria a causa primária da
formação das coisas?
“Mas, então, qual seria a causa dessas propriedades? É indispensável sempre uma
causa primária.”

Atribuir a formação primária das coisas às propriedades íntimas da matéria seria
tomar o efeito pela causa, porquanto essas propriedades são, também elas, um efeito que há
de ter uma causa.

8. Que se deve pensar da opinião dos que atribuem a formação primária a uma
combinação fortuita da matéria, ou, por outra, ao acaso?
“Outro absurdo! Que homem de bom-senso pode considerar o acaso um ser
inteligente? E, demais, que é o acaso? Nada.”
A harmonia existente no mecanismo do Universo patenteia combinações e desígnios
determinados e, por isso mesmo, revela um poder inteligente. Atribuir a formação primária
ao acaso é insensatez, pois que o acaso é cego e não pode produzir os efeitos que a
inteligência produz. Um acaso inteligente já não seria acaso.

9. Em que é que, na causa primária, se revela uma inteligência suprema e superior
a todas as inteligências?
“Tendes um provérbio que diz: Pela obra se reconhece o autor. Pois bem! Vede a
obra e procurai o autor. O orgulho é que gera a incredulidade. O homem orgulhoso nada
admite acima de si. Por isso é que ele se denomina a si mesmo de espírito forte. Pobre ser,
que um sopro de Deus pode abater!”
Do poder de uma inteligência se julga pelas obras. Não podendo nenhum ser
humano criar o que a Natureza produz, a causa primária é, conseguintemente, uma
inteligência superior à Humanidade.
Quaisquer que sejam os prodígios que a inteligência humana tenha operado, ela
própria tem uma causa e, quanto maior for o que opere, tanto maior há de ser a causa
primária. Aquela inteligência superior é que é a causa primária de todas as coisas, seja qual
for o nome que lhe dêem.
 

Atributos da divindade

10. Pode o homem compreender a natureza íntima de Deus?
“Não; falta-lhe para isso o sentido.”

11. Será dado um dia ao homem compreender o mistério da Divindade?
“Quando não mais tiver o espírito obscurecido pela matéria. Quando, pela sua
perfeição, se houver aproximado de Deus, ele o verá e compreenderá.”
A inferioridade das faculdades do homem não lhe permite compreender a natureza
íntima de Deus. Na infância da Humanidade, o homem O confunde muitas vezes com a
criatura, cujas imperfeições lhe atribui; mas, à medida que nele se desenvolve o senso
moral, seu pensamento penetra melhor no âmago das coisas; então, faz idéia mais justa da
Divindade e, ainda que sempre incompleta, mais conforme à sã razão.

12. Embora não possamos compreender a natureza íntima de Deus, podemos
formar idéia de algumas de Suas perfeições?
“De algumas, sim. O homem as compreende melhor à proporção que se eleva acima
da matéria. Entrevê-as pelo pensamento.”

13. Quando dizemos que Deus é eterno, infinito, imutável, imaterial, único,
onipotente, soberanamente justo e bom, temos idéia completa de Seus atributos?
“Do vosso ponto de vista, sim, porque credes abranger tudo. Sabei, porém, que há
coisas que estão acima da inteligência do homem mais inteligente, as quais a vossa
linguagem, restrita às vossas idéias e sensações, não tem meios de exprimir. A razão, com
efeito, vos diz que Deus deve possuir em grau supremo essas perfeições, porquanto, se uma
Lhe faltasse, ou não fosse infinita, já Ele não seria superior a tudo, não seria, por
conseguinte, Deus. Para estar acima de todas as coisas, Deus tem que se achar isento de
qualquer vicissitude e de qualquer das imperfeições que a imaginação possa conceber.”

Deus é eterno. Se tivesse tido princípio, teria saído do nada, ou, então, também teria
sido criado, por um ser anterior. É assim que, de degrau em degrau, remontamos ao infinito
e à eternidade.
É imutável. Se estivesse sujeito a mudanças, as leis que regem o Universo nenhuma
estabilidade teriam.
É imaterial. Quer isto dizer que a sua natureza difere de tudo o que chamamos
matéria. De outro modo, ele não seria imutável, porque estaria sujeito às transformações da
matéria.
É único. Se muitos Deuses houvesse, não haveria unidade de vistas, nem unidade de
poder na ordenação do Universo.
É onipotente. Ele o é, porque é único. Se não dispusesse do soberano poder, algo
haveria mais poderoso ou tão poderoso quanto ele, que então não teria feito todas as coisas.
As que não houvesse feito seriam obra de outro Deus.
É soberanamente justo e bom. A sabedoria providencial das leis divinas se revela,
assim nas mais pequeninas coisas, como nas maiores, e essa sabedoria não permite se
duvide nem da justiça nem da bondade de Deus.

Panteísmo

14. Deus é um ser distinto, ou será, como opinam alguns, a resultante de todas as
forças e de todas as inteligências do Universo reunidas?
“Se fosse assim, Deus não existiria, porquanto seria efeito e não causa. Ele não pode
ser ao mesmo tempo uma e outra coisa.
“Deus existe; disso não podeis duvidar e é o essencial. Crede-me, não vades além.
Não vos percais num labirinto donde não lograríeis sair. Isso não vos tornaria melhores,
antes um pouco mais orgulhosos, pois que acreditaríeis saber, quando na realidade nada
saberíeis. Deixai, consequentemente, de lado todos esses sistemas; tendes bastantes coisas
que vos tocam mais de perto, a começar por vós mesmos. Estudai as vossas próprias
imperfeições, a fim de vos libertardes delas, o que será mais útil do que pretenderdes
penetrar no que é impenetrável.”

15. Que se deve pensar da opinião segundo a qual todos os corpos da Natureza,
todos os seres, todos os globos do Universo seriam partes da Divindade e constituiriam, em
conjunto, a própria Divindade, ou, por outra, que se deve pensar da doutrina panteísta?
“Não podendo fazer-se Deus, o homem quer ao menos ser uma parte de Deus.”
16. Pretendem os que professam esta doutrina achar nela a demonstração de
alguns dos atributos de Deus: Sendo infinitos os mundos, Deus é, por isso mesmo, infinito;
não havendo o vazio, ou o nada em parte alguma, Deus está por toda parte; estando Deus
em toda parte, pois que tudo é parte integrante de Deus, Ele dá a todos os fenômenos da
Natureza uma razão de ser inteligente. Que se pode opor a este raciocínio?
“A razão. Refleti maduramente e não vos será difícil reconhecer-lhe o absurdo.”
Esta doutrina faz de Deus um ser material que, embora dotado de suprema
inteligência, seria em ponto grande o que somos em ponto pequeno. Ora, transformando-se
a matéria incessantemente, Deus, se fosse assim, nenhuma estabilidade teria; achar-se-ia
sujeito a todas as vicissitudes, mesmo a todas as necessidades da Humanidade; faltar-lhe-ia
um dos atributos essenciais da Divindade: a imutabilidade. Não se podem aliar as
propriedades da matéria à idéia de Deus, sem que Ele fique rebaixado ante a nossa
compreensão e não haverá sutilezas de sofismas que cheguem a resolver o problema da Sua
natureza íntima. Não sabemos tudo o que Ele é, mas sabemos o que Ele não pode deixar de
ser e o sistema de que tratamos está em contradição com as suas mais essenciais
propriedades. Ele confunde o Criador com a criatura, exatamente como o faria quem
pretendesse que engenhosa máquina fosse parte integrante do mecânico que a imaginou.
A inteligência de Deus se revela em Suas obras como a de um pintor no seu quadro;
mas, as obras de Deus não são o próprio Deus, como o quadro não é o pintor que o
concebeu e executou.
 

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