16ª Aula – VIDA ESPÍRITA- III


Parte A – ESPÍRITOS ERRANTES

A doutrina Espírita designa como erraticidade o estado em que os espíritos se encontram entre duas encarnações, denominando-os de espíritos errantes, termo usado pela primeira vez na questão 224 do LE: “Que é a alma nos intervalos das encarnações”?

– Espírito errante que aspira a um novo destino e o espera.

Necessário se faz a distinção dos vocábulos erraticidade e mundo Espírita: o primeiro implica a condição de um estado subjetivo pertinente aos espíritos de segunda e terceira ordens, isto é, Espíritos Superiores e Espíritos Imperfeitos; o segundo equivale ao local em que preexistem e sobrevivem todos os Espíritos. Os de primeira ordem, denominados puros, e que não se encontram na erraticidade, não tem mais a necessidade de reencarnarem, e assim, continuam a vida no mundo espiritual.

Por se encontrarem aguardando uma nova oportunidade de crescimento através da encarnação em mundos físicos adequados ao seu grau evolutivo, os espíritos se preparam buscando ampliação de seus conhecimentos, esta espera pode ser ou não longa, às vezes se estende por um determinado período de tempo, porém, nunca é perpétuo.

Inseridos na condição de Espíritos errantes, o livre-arbítrio está presente nas decisões a serem tomadas, mas para alguns, é indício de expiação imposta por Deus para que se adiantem na escala evolutiva, isso porque estar em erraticidade, não significa sinal de inferioridade, haja vista que os Espíritos se encontram por toda a parte. Portanto, apenas os que devem reencarnar são considerados errantes, e os Espíritos puros já se encontram em seu estado definitivo, pelas próprias qualidades íntimas conquistadas através do esforço individual.

Em erraticidade, os Espíritos analisam e refletem sobre o seu passado, sempre objetivando o aperfeiçoamento e, ao percorrerem os lugares, observam e escutam com interesse os conselhos dos encarnados mais esclarecidos, e dessa forma, as idéias novas surgem em seu íntimo, predispondo-os à aceitação dos desígnios divinos.

Portando consigo as paixões que lhes são inerentes e através do desejo e da vontade de melhorar-se, a verdade surge lenta e gradual, indicando-lhes o caminho a seguir, impulsionando-os a uma nova existência no mundo material. Muitos se sentem felizes, outros se sentindo infelizes, entrevêem o que lhes faltam para atingirem a felicidade. Algumas vezes não lhes é permitido, ainda reencarnar, constituindo assim de aprendizado para melhor valorização das oportunidades concedidas pelo Pai Criador.

No livro “O Pensamento de Emmanuel”, cap. 5, o autor assim se exprime:
“… Geralmente as imperfeições demasiado arraigadas em nossa individualidade eterna não se diluem no estado doutrinariamente denominado “Espíritos errantes” – permanência do Espírito no espaço durante o tempo que vai do instante do desenlace ao do início de uma nova ligação a outro corpo que a reencarnação lhe torcê-la, por benção de Deus…”.
Na obra “Depois da Morte”, Leon Denis nos instrui, traçando um paralelo sobre os Espíritos que se encontram em erraticidade:

“… A ignorância, o egoísmo, os defeitos de todo tipo reinam ainda na erraticidade, e a matéria ai exercem sempre sua influência. O bem e o mal acotovelam-se. É de alguma forma, o vestíbulo dos espaços luminosos, dos mundos melhores. Todos por ali passam, todos permanecem, mas para elevarem-se mais alto …”

Isso nos esclarece a contento, sobre a continuidade da nossa individualidade como Ser Inteligente após a morte, com as qualidades e as imperfeições que nos acompanham durante a nossa trajetória evolutiva ate chegarmos à condição de Espíritos puros.

MUNDOS TRANSITÓRIOS

O Ser Inteligente, ao se encontrar no mundo dos Espíritos, quase sempre suas percepções se ampliam e muitos compreendem melhor as vicissitudes porque passaram e conseguem mais ou menos mensurar a duração dos sofrimentos e a sua utilidade, e com justeza, compreendem o presente como não conseguiam compreender no estado de encarnados.

Para os Espíritos errantes, Deus lhes destinou mundos denominados transitórios, os quais lhes servem de habitações temporárias para que possam se preparar para encarnação futura e assim, desfrutar de maior ou menor bem-estar nesses mundos cujas superfícies são estéreis e, por isso, não servem como habitação para os encarnados.

No livro “O Pensamento de Emmanuel”, cap. 1, o autor assim se refere aos mundos habitados:
“… Temos assim, no Espaço incomensurável, mundos-berços, mundos-experiências, mundos-universidades e mundos-templos, mundos-oficinas e mundos reformatórios, mundos-hospitais e mundos-prisões…”.

“… As diversas zonas espirituais, superiores ou inferiores, além das fronteiras físicas, onde a vida palpita com a mesma intensidade das metrópoles humanas…”.

Tudo que Deus cria tem a sua utilidade e antes da aparição do homem na Terra, quando ainda não havia surgido os primeiros seres orgânicos, esta serviu de habitação temporária para os Espíritos que não tinham as necessidades e as sensações iguais as nossas como encarnados, mostrando a grandiosidade e sabedoria divinas.

Onde quer que se encontre a vida sempre será vida, não como nos a entendemos, mas como Deus nos mostra através da expansão do Universo por toda a parte, logo, não é de se estranhar que muitos não consigam compreender onde está a utilidade desses mundos ainda em formação, mas que a cada dia servem como verdadeiras estações para que os Espíritos errantes possam ali ter um refugio em locais não circunscritos e nem loca Liza na imensidão do Criador.

PERCEPÇÕES, SENSAÇÕES E SOFRIMENTOS DOS ESPÍRITOS.

A Inteligência como atributo do Espírito se manifesta mais amplamente quando não encontra obstáculos e, no caso dos Espíritos desencarnados, isso ocorrer em nível mais significativo porque outras percepções inerentes ao Ser Inteligente eclodem conforme o grau que lhes caracteriza a evolução.

Em “O Livro dos Espíritos“, questão 240: “Os Espíritos compreendem a duração como nós? – Não, e isso faz que nem sempre nos compreendais, quando se trata de fixar datas ou épocas.” Entendamos que eles vivem fora do tempo de tal forma que muitas vezes sentem como se os seus padecimentos fossem eternos, quando na realidade há apenas uma manifestação mais ampla sobre o presente, o passado e o futuro, sempre de conformidade com o seu grau evolutivo.

Na parte I cap. III, item 10 do livro “Céu e o Inferno”, os Espíritos Superiores nos esclarecem sobre a questão da duração do temo:
“… No intervalo das existências corpóreas o Espírito volta por tempo mais ou menos longo ao mundo espiritual, onde é feliz ou infeliz, segundo o bem ou o mal que tenha praticado…”, ou seja, não há uma só imperfeição do Espírito que não traga conseqüências desagradáveis e da mesma forma não há uma só qualidade que não lhe traga felicidade.

Na questão 244 do “O Livro dos Espíritos“: “Os Espíritos vêem a Deus? – Somente os Espíritos superiores o vêem e compreendem; os Espíritos inferiores o sentem e advinham”. Observemos que muitas vezes não conseguem compreender e distinguir os sentimentos no tocante a Deus e isso sempre os deixam confusos e desorientados quando retomam ao mundo espiritual.

Geralmente dirigem a sua atenção para o que lhe é importante e, muitas vezes se demoram nas questões ma te, sentem com maior ou menor intensidade os sofrimentos morais como decorrência de suas ações não produtivas, as sensações físicas como dores localizadas, as necessidades fisiológicas, o cansaço físico e tudo isso o leva a se sentir como se estivesse encarnado, mas na realidade, são apenas elos que repercutem em seu perispírito e as lembranças que conservam da existência física, revelando assim o grau de materialidade em que ainda se encontram.

O Perispírito, sendo o princípio da vida orgânica, embora não seja o da vida intelectual, porque esta é do domínio do Espírito, é também o agente que transmite as sensações exteriores a este, e no instante da morte, o perispírito se desprende gradativamente e a princípio, o Espírito não compreende a sua nova situação e muitas vezes se revolta agravando ainda mais os seus padecimentos morais, os quais são percebidos como fome, sede, frio, calor etc.

Na segunda parte do livro “Céu e o Inferno”, os Espíritos nas mais diversas condições evolutivas, nos revelam o grau dos sofrimentos e das dores que sentem após a morte do corpo físico, e isso é distinto para cada um, corroborando mais uma vez, que a individualidade apenas se transfere de dimensão levando consigo todas as paixões que o conduziram na existência material, pois, uma existência voltada para a espiritualização, liberta o Espírito das limitações da matéria e amplia a visão espiritual do ser como encarnado em mundos que lhes permitem trabalhar pela própria evolução e dos semelhantes.

DIFERENTES ESTADOS DA ALMA NA ERRATICIDADE

Já a par dos conhecimentos sobre a vida Espírita e sobre o Espírito na erraticidade, podemos concluir que a mor. do corpo físico provocada pela exaustão dos órgãos materiais não opera qualquer transformação em nenhum de nós, portanto, é imprescindível que aproveitemos o momento atual para refletirmos sobre nós mesmos, sobre nossas ações e reações no viver cotidiano.

O Espírito desperta na erraticidade como realmente ele é na realidade: uns não se apercebem do novo estado, continuam vivendo como se estivesse encarnado e, por conseguinte, não conseguem compreender porque os familiares e amigos agem como se não os estivessem vendo; outros, mesmo percebendo, continuam no propósito de fazer o mal; outros ainda, por se sentirem cheios de remorsos, tomam-se revoltados e inconformados com a nova situação em que se encontram; e há também os que após um despertar sereno, ingressam em trabalhos voltados para o bem.

No capitulo II, item 2, do O Evangelho Segundo o Espiritismo “…Não se turbe o vosso coração, crede em Deus, crede também em mim. Há muitas moradas na casa de meu Pai; se assim não fosse, já vo-lo teria dito, pois me vou para vos preparar o lugar. Depois que me tenha ido e vos houver preparado o lugar, voltarei e vos retirareis para mim, a fim de que onde eu estiver, também vos ai estejais…” São João, cap. XIV: 1-3.

No texto transcrito acima, observemos atentamente e procuremos reter em cada um de nós, a mensagem consoladora que Jesus nos deixou para melhor aprendermos a lidar com as adversidades do dia a dia; o apelo aos nossos melhores sentimentos; a advertência quanto ao nosso procedimento com os nossos semelhantes e, por fim, a esperança e a promessa de uma vida futura feliz.

BIBLIOGRAFIA:
KARDEC, Allan – O Livro dos Espíritos, Livro 2°, cap. VI, item 1, questões 223 a 257; item II, questões 234 a 236 e, Ensaio Teórico sobre as Sensações dos Espíritos;
KARDEC, Allan – A Gênese, cap. XII itens 25 e 35;
KARDEC, Allan – O Céu e O Inferno, cap. I, itens 1 a 15; cap. III, item 10; cap. VII, item: Código da vida Futura, parágrafos de 1 a 8;
KARDEC, Allan – O Que é Espiritismo – cap. 2, n° 17;
Revista Espírita – Maio de 1857;
Revista Espírita – Abril e Maio de 1864;

Parte B – A VERDADEIRA PROPRIEDADE

Leon Denis, na Segunda parte, capítulo IX, da magnífica obra “Depois da Morte”, poeticamente nos induz a uma reflexão profunda sobre a natureza dos nossos pensamentos e ações com relação a Deus e ao Universo, assim se exprime:

“… Na hora em que o silêncio e a noite se estendem sobre a Terra, quando tudo repousa nas moradas humanas, se dirigirmos nosso olhar para o infinito dos céus, lá veremos inumeráveis luzes disseminadas. Astros radiosos, sóis resplandecentes, seguidos pelos seus cortejos de planetas, envolvem aos milhares nas profundezas. Até as regiões mais recuadas grupos estelares se desdobram como lençóis luminosos. Em vão o telescópio sonda os céus, em parte alguma ele encontra limites para o Universo; em toda parte os mundos se sucedem aos mundos, os sóis aos sóis; em toda parte legiões de astros se multiplicam a ponto de se confundir numa brilhante poeira nos abismos sem fim dos espaços …”

O homem sempre deve se conduzir durante a existência material com sabedoria, em busca do seu aprimora-mento, adquirindo os valores e as qualidades essenciais ao seu progresso. Criado simples e ignorante para, através do esforço próprio e da perseverança nas vicissitudes que, algumas vezes lhe são impostas, outras vezes são decorrentes da sua liberdade de ação que gera responsabilidades para com Deus, para com o próximo e, sobretudo para consigo mesmo, chegar à culminância do objetivo da sua criação.

A cada nova oportunidade, ele realiza suas conquistas pessoais em níveis materiais e moral, adquirindo assim um patrimônio somente seu que o acompanha antes, durante e depois da encarnação. Conforme vai ampliando seu círculo de amizades na família, no trabalho e nas atividades sociais, conquista a cada dia algo bom e valoroso que o ajudará sempre. Nessa interação com a sociedade, ele cresce, amplia, auxilia, trabalha e auxilia seus irmãos que partilham a caminhada evolutiva Ao encarnar num corpo físico, ele traz o seu patrimônio com a finalidade de cada vez mais torná-lo valioso, e isso deveria fazer com que percebesse que tudo o que ele possuir no âmbito material, será tão somente como usufrutuário de tudo que o Pai lhe confiou através da sua misericórdia. Ao retornar a pátria de origem e quando sofrimentos inenarráveis o acometem, quase sempre ele lamenta por não ter percebido tal realidade.

Em O Evangelho Segundo o Espiritismo, cap. XVI, item II, o Espírito (Cheverus, Bordeaux, 1861) nos alerta quanto aos bens verdadeiros: “… A riqueza da inteligência deve servir-te como a do ouro; difundem em teu redor os benefícios da instrução, distribuí aos teus irmãos, os tesouros do teu amor, e eles frutificarão…”, isso deve sempre ser a meta do Espírito durante a existência física e a sua transitoriedade aqui na terra.

Quase sempre o homem procura a sua propriedade individual e intransferível nas coisas mundanas e transitórias sem a mínima preocupação com a sua parte moral vivenciando a existência com preocupações que não agregarão valores durante o seu percurso neste mundo e, ao despertar para a compreensão e aquisição desses bens imperecíveis, ele sofre, lamenta e quase sempre se revolta com a providência que sempre o agradou com suas bênçãos, objetivando o seu progresso infinito.

O objetivo do homem nas existências físicas é exatamente para que ele conquiste com sabedoria, boa vontade e desapego aos bens materiais, que constitui um dos maiores entraves ao seu crescimento que busque o seu eu interior, que siga os passos do Mestre Jesus, que mesmo encarnado, aprenda a valorizar e priorizar os bens da alma e do coração, os tesouros da amizade e da verdadeira fraternidade, quando então o bem e o amor reinarão sobre a Terra unindo todos os seres no ideal de servir e amar a Deus e ao próximo, como Jesus já havia nos dito.

BIBLIOGRAFIA

KARDEC Allan – O Evangelho Segundo o Espiritismo cap. III itens 2, 16 e, 17; caps. IV e V (Resumo da Doutrina de Sócrates e Platão); Cap. IV.
KARDEC Allan – ESE – Cap. XVI

Confira a lista completa: http://www.novodespertar.com.br/espiritismo/curso-basico-de-espiritismo/

 


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